Há mais ou menos um ano, me preparando para um vestibular da Unicamp, eu escrevi uma dissertação sobre os efeitos sociais da Internet. Como eu gostei do resultado, eu a mandei para a Tribuna Impressa, um jornal de Araraquara, que acabou por publicá-la. Aparentemente, a notícia não está mais no ar, então eu achei que não haveria problema de eu postá-la aqui. Segue o texto (que foi feito para papel impresso, então não tem links):
A inevitabilidade de mudança criada pela Internet é evidente. A Web já nos obrigou a rever conceitos anteriormente inflexíveis, como Copyright, Distância e Relações Interpessoais, e isso tudo em menos de meio século de existência. Esses dados são de conhecimento geral. O que não é comumente percebido é o potencial que a Rede tem de revolucionar positivamente nosso mundo, dos pontos de vista político, econômico e moral, principalmente.
A partir do fim da década de 90, um novo arquétipo social começou a mostrar suas caras nos grandes centros urbanos. Esse indivíduo recluso, fanático por tecnologia e incapaz de relacionar-se socialmente foi apelidado pelo sociólogo francês Étienne Barral de Homo virtuens. Essas pessoas marginais ao grupo podem mostrar-se uma forma eficiente de analisar o efeito que a Internet provavelmente terá sobre a comunicação humana no mundo todo. Os Homo virtuens, e nesse sentido eles se assemelham muito aos Otaku (tipo social japonês semelhante ao nerd americano), têm a tendência de desenvolver pouca ou nenhuma relação com outras pessoas fora da Web. Sua eloqüência nas mensagens de texto contrasta com a dificuldade de comunicar-se que essas pessoas têm na vida real. Todo seu círculo de relações é cultivado por computador. Os impactos que esse hábito tem sobre a sociedade em geral é obviamente negativo, mas, investigando mais a fundo, pode-se perceber um benefício inerente aos relacionamentos virtuais tão praticados pelos Homo Virtuens. Esse benefício, a possibilidade da criação de uma utopia ancestral, a sociedade igualitária, é posto em prática por um conceito que só foi possível com a Rede: o wiki.
“Internet é camaradagem”. Essa frase nunca teve tanto destaque quanto no começo do século XXI. Toda a Web é baseada na troca gratuita de informação. Seja compartilhando arquivos em um programa peer to peer ou simplesmente publicando uma página, você disponibiliza conhecimento a preço nenhum. O que os wikis fizeram foi organizar isso. Um wiki é um sistema virtual que visa criar algum conteúdo em grupo. Para se ter uma idéia do impacto desses sistemas, o wiki mais conhecido, a Wikipedia (uma enciclopédia organizada por usuários da Internet), tem, só em sua versão em inglês, quase dois milhões de verbetes, mais que o dobro da enciclopédia offline mais renomada, a British Enciclopedia. Ora, o que impede que, uma vez que a humanidade incorpore definitivamente a Internet, ela não comece a aplicar os Wikis de uma forma mais extensiva? A final, uma vez que se compartilha informação, compartilhar bens de produção está a menos de um passo de distância. Em uma sociedade assim, não seria sequer necessária a pressão do governo para que os cidadãos cooperassem uns com os outros: eles o fariam normalmente, como fazem na Rede. Seria um comunismo utópico, como até Marx invejaria. Dessa forma, a nova moral criada pela Web torna-se a mentalidade dominante.
E a Internet só tende a crescer. No começo de 2007, a empresa mais valiosa do mundo, com o preço estimado de aproximadamente 66 bilhões de dólares, só criava conteúdo para a Web. Essa empresa é o Google, uma companhia de fundo-de-quintal que em menos que quinze anos passou a dominar o mercado mundial. Isso, sem contar a Microsoft, também unicamente voltada às novas tecnologias, e a Apple, criadora do iPod e do primeiro computador pessoal, que estão entre as 30 empresas mais caras do mundo.
Como uma consideração final, a Internet inegavelmente tem aspectos ruins. O que os críticos assíduos frequentemente falham em ver, é que ela também tem diversos aspectos (muito) positivos, e que eles não são mais idéias longínquas para o futuro, mas forças presentes e já atuantes em nossa sociedade. A internet mudou as pessoas (e a forma como elas se relacionam) irreversivelmente. Cabe à humanidade estimular a capacidade de alteração da Web e fazer uso dela como um elemento revolucionário para criar um mundo melhor.





